Princípios para construção de sociedades fortes
Na visão de Rick Novack, Fábio Netto, Ale Dias e Fe Pereira, o sucesso da sociedade em clínicas depende de alinhamento de valores, definição clara de funções, transparência sobre expectativas e regras para lidar com mudanças ao longo do tempo
Por: Majô Gonçalves
FOTOS: Rafael marton, DERECK ALCANTARA, arquivo
O cenário para o empreendedor brasileiro é bem desafiador, principalmente nos primeiros anos de atividade das empresas. Segundo levantamento do Sebrae, cerca de 6 em cada 10 empresas não chegam a completar cinco anos de atividade. Essa realidade ajuda a dimensionar o impacto das decisões tomadas na origem do negócio e mostra a importância de escolher bem os sócios, definir responsabilidades e estabelecer regras claras de governança desde o início.
Em entrevista exclusiva, o mastermind da odontologia e sócio do Grupo ICOM, Rick Novack; e os mentores e sócios do Grupo ICOM, Fábio Netto, Ale Dias e Fe Pereira dão conselhos valiosos para quem deseja empreender na área da saúde. Especialistas no assunto, com vasta experiência, revelam, de forma inédita, os principais pontos que devem ser considerados na hora da formação de sociedades em clínicas da área da saúde que vão muito mais além de capital para começar. Os especialistas convergem em um ponto: a parceria só tende a funcionar quando há alinhamento de valores, definição clara de funções, transparência sobre expectativas e regras para lidar com mudanças ao longo do tempo.
Para Rick Novack, o primeiro critério na escolha de um sócio é o conjunto de valores e a forma como a pessoa se comporta. Segundo ele, sociedades formadas por necessidade imediata, sem conhecimento suficiente sobre o outro, podem resolver um problema de curto prazo e criar um impasse maior no futuro. Rick também defende que, sempre que possível, os sócios tenham habilidades complementares, o que ajuda a distribuir melhor as responsabilidades no negócio.
Fe Pereira segue a mesma linha ao afirmar que o ponto inegociável é o alinhamento de valores, princípios e caráter. “Antes de considerar dinheiro, conhecimento técnico ou ambição, é necessário observar como a pessoa pensa, o que considera certo ou errado e como toma decisões quando ninguém está vendo.” Ele recomenda convivência prévia antes da formalização da sociedade, incluindo trabalho conjunto e contato fora do ambiente profissional para avaliar a postura do futuro sócio.
Ale Dias complementa destacando que os valores pessoais sustentam o negócio nos momentos difíceis. “Em situações de crise, divergência ou pressão, é o caráter que define se a decisão será ética ou oportunista, transparente ou obscura, coletiva ou individualista, por exemplo.”
A sociedade não deve ser a primeira resposta para todo problema financeiro. Lembre-se: a dívida do banco tem prazo para acabar; a sociedade, não.
► Ricardo Novack
A clareza sobre o papel de cada sócio aparece como outro fator central. Ale Dias afirma que desde o início é necessário definir e dividir as tarefas e quais são as responsabilidades de cada parte. Para ele, sem essa definição surgem cobranças injustas, sensação de desequilíbrio e conflitos no relacionamento. Aquele clássico de dentistas amigos de faculdade que resolvem abrir clínica juntos, acreditando que a boa convivência acadêmica se traduz automaticamente em sucesso empresarial, nem sempre acontece. É necessário ter regras bem estabelecidas para garantir uma sociedade estruturada. “Por isso, é melhor discutir e combinar o que cada um está buscando, entender como correto e definir os objetivos individuais e comuns.”
Além disso, Ale Dias lembra que muitos dentistas não se enxergam como empresários, acham que vão apenas atender e dividir custos para tudo acontecer. Contudo, não é assim que vai garantir um negócio bem-sucedido. “É necessário ter gestão, estratégia, cuidar das finanças, do marketing e estabelecer cultura de atendimento.”
Fe Pereira detalha esse ponto ao defender que cada sócio tenha seu “quadrado” dentro da empresa, com autonomia para conduzir sua área e rotina de prestação de contas em reuniões de alinhamento. Ele cita como exemplo perfis diferentes que podem se complementar: um mais técnico e detalhista na área clínica e outro mais numérico e estratégico no financeiro, administrativo, tributário ou comercial.
Fábio Netto também acha fundamental ter transparência e definição de funções. Segundo ele, os sócios precisam deixar claro qual será o papel de cada um: investidor, avaliador, gestor ou profissional da operação, para que as expectativas pessoais e profissionais estejam ajustadas à realidade da empresa.
Ele amplia essa visão ao relacionar a sociedade com a experiência do paciente. “A estrutura da clínica, a fachada, a recepção, o atendimento da equipe, a vestimenta e a qualidade da entrega precisam estar de acordo com a filosofia do negócio.” Fábio Netto fala que a operação da clínica deve ter foco na experiência do paciente e no planejamento estratégico. “A sociedade deve ser construída pensando em todos os detalhes, como estrutura física, atendimento, equipe, comercial e caixa, mostrando uma visão de gestão mais ampla, voltada para resultado e coerência entre filosofia e entrega. Valores e filosofia devem estar alinhados de forma inegociável para que a sociedade dê certo”, comenta.
Outro ponto recorrente entre os entrevistados é a necessidade de alinhamento sobre o futuro do negócio. Rick Novack destaca que uma sociedade depende de visão de longo prazo, já que os planos das pessoas mudam com o tempo. Fe Pereira destaca que os sócios precisam discutir desde o início quanto pretendem investir, quanto tempo estão dispostos a esperar para colher resultados e quais sonhos pessoais estão vinculados à clínica.
Na questão financeira, Fábio Netto afirma que o caixa é decisivo para o crescimento da clínica. “Quando há fôlego financeiro, a tendência é investir em estrutura, equipe e expansão. Quando falta caixa, o movimento costuma ser oposto: corte de gastos, redução de equipe e restrição de investimentos. Por isso, a segurança financeira precisa fazer parte da análise antes da formalização da sociedade.”
Para que as expectativas estejam alinhadas à realidade, os sócios precisam definir com clareza o papel de cada um: quem é investidor, gestor ou profissional da operação.
► Fábio Netto
Nas sociedades formadas por casais, os especialistas apontam a necessidade de separar o vínculo afetivo da gestão do negócio. Ale Dias sustenta que o casal deve tratar a empresa de forma profissional, com reuniões de alinhamento, balancetes e feedbacks periódicos. Segundo ele, o trabalho inevitavelmente entra na rotina da casa, mas não deve ocupar todo o espaço da relação.
Fe Pereira vai na mesma direção e afirma que o casamento precisa ser visto como um pilar da sociedade. “Se o relacionamento já estiver fragilizado, abrir um negócio junto tende a ampliar os problemas”, revela. Ele também destaca que o casal precisa respeitar o espaço de cada um e manter responsabilidades bem definidas dentro da clínica.
Fábio Netto acrescenta que os perfis do casal devem ser complementares. Em sua avaliação, muitos conflitos surgem quando os dois tentam liderar as mesmas frentes e acabam interferindo um no trabalho do outro. Para ele, a sociedade funciona melhor quando cada um ocupa uma área compatível com sua expertise.
Os especialistas mostram consenso em outro ponto: mudanças de ideias são normais ao longo da vida das pessoas. Rick Novack observa que não é possível exigir que uma pessoa mantenha, dez anos depois, as mesmas prioridades e desejos do passado. Ale Dias diz que, quando a sociedade é baseada em transparência e franqueza, essas mudanças podem ser discutidas sem perda de confiança.
Fe Pereira defende que a sociedade deve prever esse cenário desde o começo. Em sua opinião, o contrato social precisa estabelecer o que acontece se um sócio quiser sair ou seguir outro caminho, inclusive com critérios para compra de cotas e avaliação de mercado. A estrutura jurídica, nessa visão, precisa acompanhar a possibilidade de mudança. (Mais informações sobre a parte jurídica estão na matéria com Ícaro Rollemberg, especialista sobre sucessão empresarial clicando aqui)
Muitos dentistas acham que vão apenas atender e dividir custos. Mas para garantir um negócio bem-sucedido, é obrigatório ter gestão, estratégia e cultura.
► Ale Dias
A manutenção do espírito de parceria aparece como um dos principais desafios da sociedade. De acordo com Ale Dias, quando os sócios pensam no outro e não apenas em si, a relação se fortalece. “A convivência regular, inclusive fora das reuniões formais, ajuda a preservar a união entre os sócios.” Ele também sugere a presença de um facilitador em sociedades com mais integrantes, para ajudar na mediação de conflitos.
Inspirado na série Billions, que apresenta as tramas envolvendo fusões, aquisições, investimentos de risco e disputas de poder, Fe Pereira vai mais longe dizendo que, em casos específicos e extremos, é possível adotar um mediador, que no caso da ficção é a psicóloga e psiquiatra Wendy.
Fábio Netto condiciona a estabilidade da sociedade ao desenvolvimento pessoal dos sócios. Na sua avaliação, autoliderança, disciplina e capacidade de lidar com frustrações influenciam diretamente a forma como a parceria responde a crises e pressões do negócio.
Rick Novack resume essa lógica ao afirmar que respeito, honestidade e transparência são os valores que sustentam a sociedade quando surgem divergências. “O problema começa quando um dos sócios não está convencido da escolha feita desde o início.”
Os entrevistados também são firmes ao apontar o que pode inviabilizar uma sociedade. Desonestidade, atalhos antiéticos, individualismo e quebra de valores aparecem como fatores de risco. Fe Pereira afirma que uma sociedade não suporta transgressão de princípios nem caráter em dúvida. Rick Novack reforça que entrar em parceria com alguém quando existe desconfiança é um erro provável de gerar conflito.
Quando vale mais contratar do que associar – Para quem quer abrir uma clínica hoje, Rick Novack e Fe Pereira convergem e dão um conselho: sociedade não deve ser a primeira resposta para todo problema. Se a necessidade for apenas financeira, há outras alternativas, como financiamento bancário ou contratação de profissionais para funções específicas.
Fe Pereira afirma que, muitas vezes, é melhor contratar um gerente ou buscar crédito do que dividir o negócio com alguém inadequado. Rick Novack resume a ideia ao dizer que o banco tem prazo para acabar; a sociedade, não. Por isso, a decisão precisa ser tomada com critério.
Os quatro especialistas são unânimes ao revelarem que a sociedade em clínicas da saúde aparece menos como uma solução rápida e mais como uma estrutura de longo prazo, que exige método. Valores alinhados, funções claras, transparência, caixa saudável, planejamento e capacidade de diálogo são os elementos que apontam como determinantes para a continuidade do negócio.
Antes de considerar dinheiro ou ambição, observe como a pessoa toma decisões quando ninguém está vendo. Uma sociedade não suporta transgressão de princípios.
► Fe Pereira

Rick Novack é sócio do Grupo ICOM e idealizador do conceito do SucessOdonto, maior evento de gestão e marketing para profissionais do Brasil e um dos maiores do mundo que deu origem ao ecossistema que reúne vários negócios e mentorias. Com uma visão prática sobre formação de sociedades em clínicas da saúde, Rick aconselha ter foco na escolha do sócio, no alinhamento de valores e na avaliação de complementaridade entre perfis. Também ressalta os riscos de decisões tomadas por urgência financeira e a importância de estruturar parcerias com visão de longo prazo.

Fábio Netto é sócio de clínicas, mentor e sócio do Grupo ICOM, fala do foco na operação da clínica, na experiência do paciente e no planejamento estratégico. Na sua análise, a sociedade deve ser pensada em todos os detalhes, desde a estrutura física, atendimento, equipe, comercial e caixa, mostrando uma visão de gestão mais ampla, voltada para resultado e coerência entre filosofia e entrega.

Ale Dias, dentista que se tornou mentor em marketing e gestão e sócio do Grupo ICOM, ressalta que o ponto de partida da sociedade começa na gestão do negócio e definição de responsabilidades. Com experiência em sociedade de clínicas, reforça a importância de estabelecer funções bem delimitadas, transparência entre os sócios e alinhamento entre expectativas pessoais e profissionais. Também orienta a adoção de rotina de clínicas e a organização da sociedade como empresa.

Fe Pereira, dentista, mentor e sócio do Grupo ICOM, lembra da importância da governança da sociedade, com atenção ao caráter, sem esquecer da convivência prévia, definição de papéis, regras contratuais e prevenção de conflitos. Em sua vivência, acredita que a estruturação societária exige maturidade de gestão e preservação da parceria ao longo do tempo.
Os bastidores desta edição: a equipe da Revista Vértice conversou com os sócios enquanto eles viajavam pelo mundo com suas famílias.