Construção do caminho para alcançar liberdade financeira
Camila Valli apresenta estratégias de gestão de finanças para clínicas odontológicas prosperarem e dentistas conquistarem independência e mais tempo livre
Por: Majô Gonçalves
FOTOS: Rafael marton, ARQUIVO
A independência financeira do dentista, associada à liberdade de tempo e menor carga emocional, passa pela forma como as clínicas são geridas. Na visão da dentista e mentora do Grupo ICOM, Camila Valli, o ponto central não está apenas na técnica clínica, mas na capacidade de transformar consultórios em empresas
estruturadas, com processos, indicadores e equipes maduras.
A relação de Camila com finanças começou antes da odontologia. Filha de empresário com formação técnica em contabilidade, cresceu num ambiente em que planejamento e controle financeiro faziam parte da rotina. Em vez de tratar números como algo assustador, aprendeu a vê-los como uma linguagem.
Ao ingressar na odontologia e assumir a gestão de clínicas próprias, essa base se mostrou determinante. Logo no início da carreira, ela constatou que excelência técnica não garante um negócio sustentável. Na prática, todas as decisões relevantes de uma clínica, como investimentos, contratações, expansão e marketing, dependem da leitura correta dos números.
Com o tempo, a profissional desenvolveu um olhar cada vez mais estratégico para a gestão. A partir da análise de indicadores, da correção de erros e do aprendizado contínuo, percebeu que compreender finanças não apenas impulsionava o crescimento das clínicas, como também gerava estabilidade emocional e melhores decisões na vida pessoal.
Camila construiu o caminho para a gestão financeira que leva à liberdade, tanto nos negócios quanto na vida do dentista.
Na sua experiência mentorando dezenas de clínicas, percebeu que o principal entrave para escalar o negócio não é clínico, mas de mentalidade, gestão e marketing. Ela conta que algumas situações aparecem com frequência e travam o avanço, como dependência da produção do dono ou de poucos profissionais.
Antes de delegar tarefas à equipe, Camila considera essencial documentar passo a passo o modo como cada processo é realizado: atendimento, agendamento, fechamento de planos de tratamento, pós-venda, entre outras questões. Essa documentação passa a ser um ativo da clínica, garantindo padrão de execução, maior previsibilidade e treinamento mais rápido de novos colaboradores. “Sem esse registro, cada membro da equipe tende a fazer do seu jeito, e a clínica perde consistência e o acompanhamento de indicadores (KPIs)”, comenta.
A gestão deixa de ser guiada por sensação e passa a ser orientada por dados. Entre os indicadores relevantes, Camila destaca ocupação de cadeira, ticket médio, conversão de leads em consultas e de consultas em fechamento de tratamento, fluxo de caixa, lucro líquido e inadimplência.
“Com dashboards e métricas bem definidas, o dentista ganha controle sem ficar preso à operação. Foco em delegar o que consome tempo e não exige alta complexidade”, revela. Segundo Camila, uma transição inteligente se inicia delegando tarefas, começando pelos procedimentos mais simples, que consomem tempo do dentista, mas poderiam ser executadas por equipe treinada.
Desta forma, em sua análise, decisões estratégicas e de maior impacto ficam sob responsabilidade do gestor, enquanto o restante é distribuído, liberando agenda e energia.
Quando a receita está diretamente ligada ao quanto o dentista proprietário atende, o crescimento é limitado. Qualquer afastamento, que envolve férias, doença, mudança de rotina, causa impacto imediato.
“Misturar finanças pessoais e da clínica, com despesas familiares lançadas como custos, distorce completamente a leitura financeira. Sem separar pessoa física e jurídica, não há planejamento confiável, tampouco clareza sobre a possibilidade de investimento e expansão”, afirma.
A falta de gestão do fluxo de entradas e saídas deixa o negócio sem reservas e sem capital de giro. A clínica se torna vulnerável a qualquer oscilação de faturamento ou imprevisto operacional, além de ficar sujeita à baixa capacidade de investir em tecnologia, inovação e marketing. Sem investimento nesses pilares, a clínica perde competitividade, posicionamento e capacidade de entrega de valor superior ao paciente.
Excelência técnica não garante um negócio sustentável. A verdadeira independência financeira exige transformar o consultório em uma empresa estruturada, onde a gestão deixa de ser guiada por sensação e passa a ser orientada por dados.
► Camila Valli
Entre os diversos indicadores que podem ser acompanhados, Camila destaca os indispensáveis para entender a situação financeira real da clínica:
Nenhuma cadeira funciona com 100% de ocupação o tempo todo. Faltas, remarcações e janelas na agenda são parte do cotidiano. Por isso, o modelo considera uma ociosidade prevista de 20%. Ignorar esse fator leva a uma hora-clínica irreal, que, mais tarde, compromete a precificação e a margem de lucro.
► Camila Valli
A hora-clínica é um dos pilares da precificação. Na metodologia desenvolvida pelo Grupo ICOM, coordenada por Camila, o cálculo busca refletir a realidade da operação, e não um cenário idealizado. A ociosidade prevista da cadeira, por exemplo, deve ser levada em consideração. “Nenhuma cadeira funciona com 100% de ocupação o tempo todo. Faltas, remarcações e janelas na agenda são parte do cotidiano.
Por isso, o modelo considera uma ociosidade prevista de 20%”, explica Camila, complementando que ignorar esse fator leva a uma hora-clínica irreal, que, mais tarde, compromete a precificação e a margem de lucro.
A depreciação de equipamentos, mobiliário e estrutura é tratada por meio de um fundo de melhorias, sendo que um percentual do fluxo de recebíveis é reservado mensalmente para que esse valor financie reformas, atualizações e substituições de ativos da clínica. Com isso, os custos de renovação entram de forma planejada, sem impacto abrupto no caixa.
“Com ociosidade prevista e fundo de melhorias incorporados, a hora-clínica passa a espelhar o custo real da operação e sustenta uma precificação saudável, alinhada à independência financeira.”
Antes de oferecer condições estendidas, Camila considera fundamental conhecer o perfil financeiro do paciente, usando ferramentas de análise de crédito para avaliar histórico de pagamentos e definir limites de parcelamento por perfil. Ela explica que essa prática torna a venda mais segura e reduz a inadimplência. Também aponta como é importante definir é a régua de cobrança, antes do primeiro atraso, com lembrete antes do vencimento. “A solução é agir rápido, com comunicação profissional e respeitosa”, acrescenta.
Independência financeira na odontologia não é sobre ganhar muito, mas envolve uma construção que inclui precificação correta, acompanhamento de indicadores importantes, separar pessoa física de pessoa jurídica e conseguir obter capital de giro robusto.
Quando essa estrutura existe, Camila revela que o profissional conquista liberdade de tempo, estabilidade emocional, e o negócio que cresce com segurança, sendo possível alcançar uma vida mais leve.
Essa é a odontologia em que Camila acredita e trabalha para construir ao lado dos mentorados do Grupo ICOM: clínicas sustentáveis, lucrativas, com equipes fortes e dentistas que finalmente podem viver a liberdade que imaginaram quando decidiram empreender.
Misturar finanças pessoais e da clínica, com despesas familiares lançadas como custos, distorce completamente a leitura financeira. Sem separar pessoa física e jurídica, não há planejamento confiável, tampouco clareza sobre a possibilidade de investimento e expansão.
► Camila Valli