Liderar para transformar
sorriso
Referência em gestão e liderança na odontologia, Day Peixoto fala da sua jornada como empreendedora e de sua experiência, destacando muitos aprendizados que ela compartilha nesta matéria exclusiva para a revista
POR: MAJÔ GONÇALVES
FOTOS: RAFAEL MARTON, DERECK ALCANTARA, ARQUIVO
Hoje, quando o assunto é gestão e liderança em odontologia, o nome Day Peixoto aparece em destaque. Ela está à frente de múltiplas unidades, diversos negócios e da mentoria Líder 7, do Grupo ICOM, voltada para dentistas que querem sair do modo “apaga-incêndio” diário e assumir, de fato, o papel de líderes.
Mas a história de Day não começou como dona de clínica nem como mentora. Ela iniciou a sua carreira como CLT, no mundo corporativo, subindo degrau por degrau.
Antes de empreender, Day foi funcionária por muitos anos. Trabalhou em multinacionais, cresceu em cargos relacionados à liderança e gestão e, nesse período, construiu a base que hoje sustenta o seu jeito de gerir negócios e pessoas. Ela entendeu, na prática, o impacto de uma cultura forte, de processos bem definidos e, principalmente, da postura da liderança no resultado da empresa.
Quando decidiu empreender, não criou fórmulas mágicas, trouxe bagagem e muita disposição para aprender e enfrentar os desafios. “Eu cresci, na prática, dentro do empreendedorismo, às vezes, errando, outras vezes, acertando.”
O grande ponto de virada veio quando Day percebeu que, se quisesse dar um salto real, não bastava ter uma clínica bonita, bons equipamentos e uma agenda cheia. Era preciso formar líderes dentro do próprio time. “Quando comecei a estruturar cultura, treinar meus funcionários como líderes mesmo, o negócio mudou.”
Hoje, ela lidera várias unidades, toca vários negócios e criou o Líder 7 justamente porque percebeu um problema crônico: o maior gargalo das empresas, especialmente clínicas, não é técnico, é humano. E tudo começa na liderança.
Cultura na clínica: o que acontece quando o dono não está olhando – Cultura empresarial virou palavra da moda, mas para Day, especialmente na odontologia, isso é algo muito concreto. Ela costuma dizer que cultura não é frase bonita na parede, é o comportamento que você permite todos os dias.
Na rotina de uma clínica, cultura aparece em situações simples, mas decisivas, que envolvem desde a forma como o paciente é tratado quando ninguém está olhando, a maneira como o time reage quando vê uma meta e até quando o líder corrige um erro.
Se o dono da clínica não constrói intencionalmente a cultura, acaba aceitando qualquer comportamento. E é exatamente aí que começa a perder dinheiro sem perceber o motivo. Segundo Day, cultura é o que seu time faz quando você não está olhando.
Por trás de resultados consistentes, existe uma base de valores que não balança ao sabor do mês. Na clínica de Day, alguns princípios são inegociáveis. “Não abrimos mão de respeito entre as pessoas, responsabilidade com resultado, compromisso com a equipe e verdade acima de conveniência”, declara.
Ela também defende, com força, a meritocracia porque não há espaço para quem entrega mais ou menos, para desculpas constantes ou para quem não quer crescer. “Cultura forte exige decisão difícil. E isso inclui, muitas vezes, tomar decisões duras em relação a comportamentos que prejudicam o time, mesmo quando vêm de profissionais tecnicamente excelentes.”
Um equívoco que Day vê com frequência no mercado é a ideia de que atendimento humanizado e resultado financeiro estão em lados opostos. Ela pensa exatamente o contrário. “Atendimento bom vende mais, pois um paciente bem atendido fecha mais tratamentos, volta e indica pessoas”, revela.
Para Day, os extremos são perigosos, uma vez que só humanização, sem resultado, vira custo e só foco em resultado, sem humanização, vira reclamação. O equilíbrio está em treinar a equipe para atender com intenção real de resolver o problema do paciente, não de empurrar tratamentos.
Quem convive com Day sabe que ela é uma líder direta, clara, sem rodeios desnecessários. O seu time a conhece bem e sabe o que esperar.
Na visão dela, o estilo de liderança impacta diretamente no comportamento da equipe, gerando efeito de causa e consequência, por exemplo:
Líder fraco deixa equipe confusa;
Líder ausente acaba gerando equipe perdida;
Líder inseguro resulta em equipe travada.
O aprendizado que ela leva para os negócios é simples e, ao mesmo tempo, definitivo. “Resultado é reflexo da liderança. Quando a liderança está alinhada, o faturamento sobe, o clima interno melhora e o paciente percebe a diferença.”
E o lucro que todo empresário procura acaba chegando em um ritmo mais estável.
Em vez de culpar o calendário, o “mês fraco” ou a sazonalidade, Day prefere fazer outra pergunta: onde estamos errando?
Para atravessar períodos de menor demanda mantendo o negócio saudável, ela aposta em ações bem objetivas que envolvem ativar a base de pacientes, fortalecer o follow-up, treinar o time comercial e criar campanhas inteligentes.
Segundo Day, quem trabalha bem a base de clientes sai na frente. Ela lembra que há um universo de oportunidades em pacientes que podem indicar novos, retomar uma segunda etapa de tratamento, fazer uma recompra ou complementar o que já foi iniciado.
Em um cenário em que muitos profissionais sonham com redes de clínicas, franquias e novas unidades, Day traz um contraponto importante. Para ela, a pergunta não é “quando eu quero expandir”, mas “eu consigo replicar resultado?”
Se a unidade atual só funciona quando o dono está presente, ela resume de forma contundente que não é empresa, é um emprego caro. A expansão segura exige processo validado, liderança formada e cultura forte. Sem esses pilares, abrir mais uma unidade é apenas multiplicar problemas.
Ela gosta de comparar com uma mãe que tem um filho pequeno e engravida logo em seguida, sem rede de apoio. A chance de sobrecarga emocional é enorme.
Quando o filho mais velho já está mais independente e existe suporte, tudo fica muito mais leve. Com empresas, ela diz que segue a mesma lógica. “Deixe a primeira unidade mais independente, crie uma cultura forte e só então pense em abrir a próxima.”
Antes de se encantar com a ideia da segunda unidade, Day sugere avaliar se a clínica atual roda bem sem o empresário. Caso a resposta seja não, o foco não é expandir, é estruturar.
Em caso de resposta positiva, vale olhar com lupa vários dados do resultado, como lucro real, capacidade de gestão e equipe pronta para segurar o crescimento. Day acrescenta que expansão não é emoção, é estratégia.
Em meio a tantos desafios diários, como um líder se mantém firme? “Parando de depender de motivação. Motivação passa, disciplina sustenta.” Na prática, o que mantém um líder forte é clareza de propósito, responsabilidade sobre o time e resultado visível do próprio trabalho. E um fator crucial: parar de terceirizar culpa.
Esse tema ganhou ainda mais força com a criação do Psicorporate, uma comunidade de desenvolvimento de líderes dentro da PRO7, empresa da qual Day é sócia ao lado de Rick Novack, Jojo Rodrigues e Ka Bronholo. O foco é trabalhar com escuta ativa dos funcionários, dar apoio nas decisões da liderança e apresentar caminhos claros para o próximo passo. O objetivo não é só motivar, mas sustentar o líder com base em consciência, ferramentas e visão.
“Não existe equipe forte com liderança fraca.”
Na opinião de Day, existe um abismo entre ser um excelente dentista e ser um bom empresário.
E ele só é vencido com três competências-chave: gestão de pessoas, comunicação e tomada de decisão. Ela reforça também que o dentista pode ser tecnicamente impecável, mas, se não souber se comunicar com o time e com os pacientes, tem grandes chances de não crescer como empresa. “Ser bom técnico não constrói empresa. Empresa cresce com liderança.”
É comum ouvir de dentistas: “Eu amo atender, mas tenho medo da parte de gestão”.Day responde com humor, mas sem aliviar a responsabilidade: “Ou você aprende a liderar ou vai sempre depender de alguém.” Foi justamente para acolher esse perfil de profissional que nasceu a PRO7 e o Psicorporate, que consiste em estruturar o trabalho que começa sempre pela base para organizar processos, definir cultura e treinar as pessoas. Tudo isso sem permitir que o líder fuja pela tangente. “Porque no final, o resultado da clínica sempre volta para o dono. Então, minha missão é desenvolver novos líderes.”
A história de Day Peixoto prova que liderança não é um título na porta da sala, é uma construção diária. Ela saiu do mundo CLT, aprendeu com gigantes, errou empreendendo, acertou quando colocou gente e cultura no centro do negócio, e se tornou referência em um dos setores mais exigentes: a odontologia. Mais do que falar de metas, ela fala de comportamento, responsabilidade e coragem de decidir. E deixa um recado claro para quem quer uma clínica forte.
Cultura não é frase bonita na parede; é o comportamento que você permite todos os dias. Cultura forte exige decisão difícil. E isso inclui, muitas vezes, tomar decisões duras em relação a comportamentos que prejudicam o time, mesmo quando vêm de profissionais tecnicamente excelentes.
► Day Peixoto
Se a unidade atual só funciona quando o dono está presente, não é empresa, é emprego caro. Abrir mais uma unidade é apenas multiplicar problemas.
► Day Peixoto